A história de Tenorinho, o brilhante músico brasileiro sequestrado na ditadura argentina

Os filhos do pianista Francisco Tenório Júnior, Tenorinho, tinham menos de dez anos de idade quando o pai desapareceu. Eles já haviam perdido a esperança de reencontrá-lo, até que suas digitais foram confirmadas, em setembro do ano passado, em um corpo sepultado sem identificação em Buenos Aires.

Os filhos de Tenório Júnior durante homenagem feita por Gilberto Gil para o pianista num show no teatro do BNDES, no Rio de Janeiro. (Foto: EFE/ André Coelho).

Elisa (58), Margarida (55) e Francisco (57) são filhos do talentoso pianista, que desapareceu aos 35 anos, durante uma turnê com Vinícius de Moraes e Toquinho na Argentina.

Quase cinco décadas após seu desaparecimento, a justiça argentina confirmou que “Tenorinho”, como era conhecido no mundo da música, foi mais uma vítima da última ditadura militar.

Há poucos meses, a família ficou sabendo oficialmente o que aconteceu com o pai, que desapareceu no centro de Buenos Aires em março de 1976, seis dias antes do último golpe de Estado na Argentina.

Na época do desaparecimento, ele tinha quatro filhos e um a caminho. Era casado com Carmen Magalhães Tenório Cerqueira (1942-2019), professora de inglês. Boêmio, de estilo sofisticado, culto, Tenório cursava o quarto ano de Medicina quando se apaixonou pela música. Em 1964, lançou seu único álbum, “Embalo”, com sucessos como “Nebulosa”, que o consagraram no cenário musical brasileiro

“Tenório foi uma figura importante, um dos pioneiros do famoso samba jazz brasileiro. Ele mudou a forma como o samba era tocado. Foi um dos grandes precursores, uma novidade, um grande músico, uma pessoa maravilhosa”, recorda o músico Mutinho (82). Baterista, Mutinho participou daquela turnê internacional, junto com Vinícius de Moraes, Toquinho ao violão, Tenório ao piano e Azeitona no contrabaixo. Eles tocaram por mais de um mês no Cassino do Hotel San Rafael em Punta del Este, Uruguai, e depois viajaram para Buenos Aires.

“Meu pai viajava muito, mas estava sempre presente. Naquela época, ele mandava muitas cartas. Mandava presentes. Meu aniversário é dia 25 de fevereiro e recebi uma blusinha que ele mandou da Argentina. Ele também mandou uma para a Elisa, que completava oito anos no dia em que ele desapareceu”, conta Margarida.

Na Argentina, o último show dos brasileiros foi anunciado no jornal Clarín na terça-feira, 16 de março de 1976, como parte da programação do Teatro Gran Rex: “Vinícius De Moraes e Toquinho. Ingressos à venda a partir de 350 pesos. Amanhã, às 22h30, show de despedida de Vinícius de Moraes e Toquinho.”

A noite do desaparecimento de Tenório

Como figura conhecida na cena musical de Buenos Aires, Vinícius, a atração principal, estava hospedado em um hotel perto do Teatro Gran Rex. O restante do grupo ficou hospedado no Hotel Normandie, na Rua Rodríguez Peña, 320, a poucos metros da Avenida Corrientes.

“Depois que tocamos, fui jantar e voltei para o hotel. Cheguei primeiro, depois da meia-noite, porque fui jantar na casa da filha do cônsul da Itália, que era namorada de um amigo meu”, conta Mutinho.

Tenório tinha um relacionamento com uma jovem carioca de 23 anos. Ela o acompanhou na turnê pelo Uruguai e foi a última pessoa do grupo a vê-lo vivo, em 18 de março, em Buenos Aires.

No Rio de Janeiro, o Clarín a contatou. Embora tenham se passado 50 anos, Malena Barretto (73) se lembra de tudo o que aconteceu.

“Chegamos em Buenos Aires alguns dias antes do golpe; havia barricadas militares por toda parte. Essa atmosfera nos preocupou. Os shows começavam muito tarde e terminavam por volta da meia-noite. Devia ser madrugada do dia 18 de março, mas não muito tarde, no máximo 1h ou 2h da manhã. Tenório saiu para comprar um sanduíche e algo na farmácia porque estava com dor de cabeça.”

“Achei estranho porque havia passado uma hora e ele ainda não tinha voltado, porque era ali perto. Então liguei para o Mutinho”. O baterista confirma a ligação: “Ela me perguntou se eu tinha encontrado o Tenório na rua. E eu respondi: ‘Não, não encontrei, mas não se preocupe, talvez ele tenha se encontrado com o Azeitona e estejam tocando juntos em algum lugar e se divertindo’. Mas aí ela ligou de novo às 2h30 e disse que o Tenório não tinha voltado. O Azeitona chegou no quarto e também não sabia onde o Tenório estava. A Malena me ligou de novo às 4h ou 5h da manhã dizendo que ele ainda não tinha chegado”. “Aí eu acordei todo mundo, inclusive o Toquinho, e liguei para o Vinícius.”

Na época, Vinicius de Moraes era casado com a argentina Marta Rodríguez Santamaría (73). Era o oitavo de seus nove casamentos. “Naquela manhã, o telefone tocou às 11. Lembro-me bem porque Renata (Schussheim) estava trabalhando em um desenho para um livro de poesia que estava escrevendo. Toquinho parecia preocupado, então eu acordei o Vinícius e passei o telefone para ele. Foi aí que começou toda a odisseia de encontrá-lo”, lembra Marta. Naquela manhã, todos saíram à sua procura de Tenorinho. Fomos aos hospitais e até ao necrotério.”

Vinícius, advogado, ex-diplomata e compositor, contatou seu ex-genro, que era cônsul em Buenos Aires, mas as horas se passavam sem notícias. Então ele entrou com um pedido de habeas-corpus e organizou uma coletiva de imprensa. Com a atmosfera ficando cada vez mais tensa, dois ou três dias depois Malena e os músicos voltaram para o Brasil e Vinícius ficou em Buenos Aires para continuar a busca.

O impacto do desaparecimento de Tenório no Brasil

No Rio de Janeiro, a notícia do desaparecimento chegou em 18 de março, o mesmo dia da festa de 8 anos de Elisa. “Eu me lembro do movimento em casa por causa do aniversário da Elisa. Lembro também da vizinha comentando algo que tinha visto no noticiário. “Minha mãe era uma pessoa muito forte, não era de fazer escândalo, mas devia estar desesperada”, lembra Margarida, na primeira entrevista concedida pelos filhos de Tenório para a Argentina. Ao relembrar aquele aniversário, Elisa diz que havia uma sensação estranha no ar.

O que se seguiu foram dez anos de esperanças vãs. “Me lembro da angústia de crescer com a expectativa de que o meu pai talvez aparecesse”, diz Francisco. Ele é o único filho homem de Tenório ainda vivo. João Paulo morreu em 1991 e Leonardo, que nasceu em abril de 1976 e nunca conheceu o pai, morreu em 1993.

“Eu ia para a escola e, quando saía, pensava que ele poderia estar lá me esperando. Eu pensava: ‘Ele vai aparecer, ele vai voltar’”. “Nós éramos muito crianças, mas tínhamos expectativas”, conta Margarida.

As mentiras de Vallejos duraram 40 anos

O desaparecimento de Tenório ficou envolto em incertezas e relatos contraditórios. Essa falta de respostas encontrou uma aparente resolução em 1986, quando o ex-soldado Claudio “El Gordo” Vallejos (1958-2021) concedeu uma entrevista detalhada sobre o assassinato do pianista. Membro do 3º Batalhão de Infantaria da Marinha (BIM 3) de La Plata e integrante da Força-Tarefa do centro de detenção clandestino que operava na Escola de Mecânica da Marinha (ESMA), em Buenos Aires, ele fez um relato que mortificou a família durante quatro décadas.

Em 20 de maio de 1986, a revista Senhor publicou em sua 270ª edição uma longa entrevista com o ex-soldado. Sob o título “A História Oficial”, o mesmo nome do filme argentino que havia ganhado o Oscar 57 dias antes, o jornalista Maurício Dias entrevistou Vallejos, então com 28 anos, que deu detalhes sobre o assassinato de Tenório.

“Um homem barbudo, de cabelo comprido e vestido meio hippie, com um rosto parecido com o do Fidel Castro ou do Che Guevara, era considerado suspeito. O oficial Alfredo Astiz viu Tenório parado na Avenida Corrientes (…). Ele estava de camisa xadrez, não me lembro da cor. E também com uma jaqueta de couro. Tinha carteira de membro do sindicato dos músicos brasileiros e passaporte número 197.803”, disse Vallejos.

Quando o jornalista lhe perguntou como é que ele se lembrava do número do passaporte, ele disse que tinha as fichas dos sequestrados, mas não no Brasil. Na página 48 daquela edição do Senhor, Vallejos disse que ele mesmo agrediu Tenório no suposto local do sequestro e o levou à então ESMA (Escola de Mecânica da Marinha).

Ao longo de oito páginas, o membro do Serviço de Inteligência da Marinha afirmou que Alfredo Astiz havia executado Tenório com um único tiro dentro de uma cela da ex-ESMA.

“Colocamos ele em um caminhão da Marinha e o levamos para o cemitério”, disse Vallejos, especificando que o enterraram no cemitério de Chacarita, em Buenos Aires. “Sob o nome falso de Marcelo Fernández, com a matrícula falsificada 3.381. Esta é a primeira vez que eu estou contando essa história”, declarou o ex-soldado.

Assim que a reportagem foi publicada, houve uma denúncia de familiares de desaparecidos. E 48 horas depois da publicação da revista, a polícia brasileira prendeu Vallejos na sede da revista Senhor, enquanto o ex-soldado concedia uma segunda entrevista.

Segundo um telegrama da agência de notícias espanhola EFE, publicado pelo Clarín em 1986, Vallejos recebeu dinheiro para contar essa história. “Antes de vender suas declarações à revista Senhor, pelas quais recebeu US$ 800, o argentino procurou a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) com o aparente objetivo de ganhar credibilidade com a imprensa”, detalhou a agência.

Essas declarações do ex-militar afetaram profundamente a família e os entes queridos do pianista. “Até a chegada de Vallejos, eu achava que o meu pai ainda poderia aparecer. Mas, a partir daí, foi uma sensação diferente. Vallejos levou embora toda a esperança que me restava e no lugar ficou a realidade brutal. Foi aí que a raiva me dominou”, confessa Elisa, a filha mais velha de Tenório.

“Em 1992, minha mãe foi a Buenos Aires. Ela foi à ESMA e disseram que ali não tinham nenhuma informação. Mas não checaram nada”, conta Margarida.

Grande parte dessa história é retratada no excelente documentário “Atiraram no Pianista”, do diretor espanhol Fernando Trueba, lançado em 2023, que apresenta entrevistas com muitos protagonistas, que já faleceram. Porém, no ano passado, dois anos após a estreia do filme, ocorreu o fato mais importante: a identificação.

Uma história que chegou ao fim meio século depois

Por quase quatro décadas, a versão de Vallejos moldou a memória do caso. Mas a história deu uma guinada decisiva em 2025, quando uma investigação judicial levou à identificação do corpo de Tenório e à reconstrução do ocorrido, com evidências concretas.

O Ministério Público de Crimes contra a Humanidade (PCCH) e a Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF), que buscam os registros judiciais de pessoas que morreram entre 1975 e 1983 e foram enterradas como não identificadas, encontraram o arquivo de um homem baleado com cinco tiros. Ele tinha sido encontrado morto em um terreno baldio na cidade de Tigre, no dia 20 de março de 1976, dois dias depois do desaparecimento de Tenório. A autópsia determinou que a hora da morte foi 48 horas antes da descoberta do corpo: Tenório morreu após ser sequestrado e não apresentava sinais de tortura.

No processo nº 5175, supervisionado pelo juiz Eduardo Horacio O’Connor, é descrita a descoberta do corpo, com cinco ferimentos de bala e três cápsulas de munição (duas de 9 mm e uma de calibre 11,25). Como parte da burocracia estatal, o homem de barba, vestido com calça jeans e jaqueta, foi fotografado e suas impressões digitais foram coletadas — prova fundamental para a identificação 50 anos depois.

Ao ser contatado por este jornal, O’Connor afirmou que crimes envolvendo cinco ferimentos de bala não eram comuns, mas não se lembrava desse caso específico. Ele também contou que deixou o cargo de juiz em San Isidro em maio de 1976. Quatro dias após a descoberta do corpo, ocorreu o Golpe de Estado no país.

“O General Santiago Omar Rivero, que chefiava os institutos militares e assumiu o comando do judiciário, me perguntou: ‘Vocês vão nos ajudar? Porque se não, vocês estão fora.’ Nem eu nem vários dos meus colegas ficamos.” O ex-magistrado só soube agora da resolução do caso, por meio de um telefonema do Clarín.

“No processo, viram a data em que o corpo foi encontrado e as fotografias. Nos enviaram isso para para que comparássemos com os nossos bancos de dados, e foi assim que surgiu a hipótese de que poderia ser Tenório. Apresentamos essa evidência e o Tribunal Federal ordenou a comparação das impressões digitais.” Para isso, tivemos que pedir ao Brasil que compartilhasse conosco as impressões digitais de referência de Tenório”, explica Mariana Segura, diretora para a América do Sul da EAAF.

A identificação foi notificada em setembro do ano passado (2025). A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos do Brasil contatou os filhos de Tenório e a EAAF participou virtualmente. “Foi uma sensação estranha, como um certo alívio, algo que não esperávamos mais que acontecesse, descobrir a verdade. E um alívio porque ele não foi torturado”, conta Francisco Tenório.

Ao serem notificados, os três filhos pensaram em Carmen. “No fundo, ela sabia que ele não voltaria. Mas ela o esperou até o fim. Ela sabia que ele provavelmente tinha sido assassinado.”

Com a descoberta do arquivo apareceu um envelope contendo duas correntinhas de prata que Tenório usava. Como seus restos mortais foram transferidos para um ossuário há muitos anos, essas correntinhas ganharam um valor especial. São as únicas coisas que restaram do pai, assassinado na Argentina há 50 anos.

fuente: CLARIN

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